Por
Redação Afya
3.11.2026
•
4 min de leitura
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Um estudo derivado do índice Afya MedQoL, ferramenta voltada à compreensão da qualidade de vida e bem-estar dos médicos brasileiros, conquistou o prêmio de melhor artigo científico na Sessão de Pesquisas e Artigos Científicos do XLIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado entre 28 e 31 de outubro, em São Paulo.
Intitulado “Impactos das disparidades de gênero na saúde mental e na qualidade de vida: estudo transversal com médicos brasileiros”, o trabalho foi apresentado no congresso pelo médico Marcelo Gobbo, autor do artigo e consultor da Afya.
A pesquisa analisou dados de 2.005 médicos de diferentes regiões do Brasil para compreender como fatores como sexo, idade, região, estágio da carreira e presença de transtornos mentais estão associados à qualidade de vida dos profissionais. O estudo também investigou se, mesmo diante da crescente feminização da medicina, persistem disparidades de gênero relacionadas à saúde mental.
Os resultados apontam um cenário que merece atenção. A qualidade de vida global dos médicos avaliados foi de 59,5 pontos, sendo o domínio psicológico o mais comprometido, com 55,5 pontos. Entre as mulheres, 46,8% relataram algum transtorno mental, ante 33,5% dos homens. A diferença também aparece na ansiedade, presente em 39,9% das médicas e 25,1% dos médicos, e na depressão, que alcança 25,3% das mulheres e 17,7% dos homens.
“Os números mostram que, mesmo em uma profissão cada vez mais feminina, as desigualdades não desapareceram. Quase metade das médicas avaliadas relataram conviver com algum transtorno mental. Dar visibilidade a essa realidade é fundamental para avançarmos na construção de ambientes e políticas que cuidem também de quem dedica a vida a cuidar dos outros”, afirma Marcelo Gobbo.
Saúde mental é o fator de maior impacto na qualidade de vida
Um dos principais achados do estudo é o peso dos transtornos mentais sobre a percepção de qualidade de vida. A presença de um transtorno foi o principal preditor de pior qualidade de vida entre os participantes, associada a uma redução de aproximadamente 9 a 10 pontos nos domínios psicológico e de percepção global.
A pesquisa identificou ainda uma trajetória em forma de “U” ao longo da carreira, com níveis mais baixos de qualidade de vida no início e no meio da vida profissional. De maneira geral, os resultados indicam uma qualidade de vida entre médicos brasileiros inferior à observada na população geral de países de alta renda e em profissionais desses países.
Os dados reforçam a necessidade de estratégias que ultrapassem iniciativas individuais de autocuidado e avancem para medidas estruturais, como políticas de equidade de gênero, promoção de estilos de vida mais saudáveis e ações voltadas especificamente à saúde física e mental dos médicos.
Ciência para compreender e transformar a realidade médica
A premiação ganha significado especial devido ao artigo ser fruto dos dados produzidos pelo Afya MedQoL, índice desenvolvido para ampliar a compreensão sobre a qualidade de vida dos médicos e oferecer evidências capazes de apoiar novas estratégias de cuidado com esses profissionais.
Para Gobbo, o reconhecimento da comunidade científica reforça o potencial da pesquisa para transformar um tema frequentemente tratado de maneira individual em uma discussão mais ampla sobre as condições em que médicos e médicas trabalham e vivem.
“Ouvir mais de 2 mil médicos nos permite transformar percepções em evidências. E evidências ajudam a mostrar que o sofrimento de quem cuida não pode ser naturalizado. Esse prêmio reconhece o trabalho científico, mas, acima de tudo, amplia a nossa responsabilidade de continuar ouvindo esses profissionais e transformar o que aprendemos em caminhos concretos para promover saúde e qualidade de vida”, destaca Gobbo.

O prêmio foi recebido em 30 de outubro, uma data carregada de significado para o pesquisador: marca também o aniversário de morte da psiquiatra brasileira Nise da Silveira, uma das principais referências de Gobbo.
Médica formada na Bahia em 1926, única mulher de sua turma, Nise marcou a história da psiquiatria brasileira por questionar práticas que considerava desumanas e defender novas formas de compreender e cuidar de pessoas com sofrimento psíquico.
Ao receber o reconhecimento, Gobbo dedicou a conquista à memória da psiquiatra e destacou uma conexão entre sua trajetória e a pesquisa apresentada no congresso: a importância de ouvir pessoas e realidades que muitas vezes permanecem invisibilizadas.
“Nise passou a vida ouvindo quem ninguém escutava. Desta vez, quem precisava ser ouvido era quem cuida. É a isso que temos dedicado parte da nossa trajetória”, afirma.
A conquista reconhece o trabalho desenvolvido em conjunto pelo Centro de Pesquisa e Inovação e pela área de Sustentabilidade da companhia, além de fortalecer o compromisso da Afya com a produção de conhecimento capaz de contribuir para uma medicina mais saudável, sustentável e humana.